quarta-feira, 15 de abril de 2026

Da tecnologia instrumental à intencionalidade pedagógica: reflexões e planejamentos no estágio docência

 


A experiência vivenciada no estágio de docência tem sido extremamente significativa, enriquecedora e prazerosa para minha formação docente. A cada encontro, reafirmo o quanto a sala de aula pode se constituir como espaço de construção coletiva do conhecimento, diálogo e transformação. Tenho me sentido profundamente realizado ao perceber o envolvimento dos estudantes e a qualidade das reflexões que vêm emergindo ao longo das aulas.

No encontro de hoje, demos continuidade às discussões iniciadas na aula anterior, a partir de uma situação-problema relacionada ao uso de recursos educacionais digitais no ensino de Química. O contexto apresentado envolvia uma escola pública que havia recebido investimentos em tecnologias digitais, como tablets, aplicativos, simulações virtuais e inteligência artificial. Entretanto, mesmo após esse investimento, a aprendizagem dos estudantes não apresentava melhorias significativas. Entre os desafios relatados estavam o uso superficial das ferramentas, a ausência de integração com a experimentação, a dispersão dos estudantes e dúvidas sobre formas de avaliação em contextos mediados por tecnologia.

A partir desse problema, os estudantes foram convidados a analisar a situação e elaborar um mapa conceitual, identificando os principais desafios presentes no cenário proposto e articulando suas análises com as leituras realizadas previamente. Para subsidiar a atividade, foram indicados textos de Valente e Almeida (2022), Santana, Pimentel e Bittencourt (2025), além de capítulo do livro de Fernando Pimentel sobre cultura digital.

O resultado da atividade foi extremamente positivo. Durante a construção dos mapas conceituais, ficou evidente que os estudantes compreenderam a proposta e conseguiram relacionar os referenciais teóricos às suas próprias vivências escolares e experiências de estágio. Mais do que reproduzir conceitos, eles demonstraram capacidade de problematizar a realidade, reconhecendo que muitos dos desafios discutidos no caso apresentado também estão presentes em contextos reais de ensino.

Um momento especialmente marcante ocorreu quando alguns estudantes relataram que utilizavam ferramentas como o Kahoot apenas como recurso de quiz, por perceberem que os alunos gostam da dinâmica. No entanto, após as discussões desenvolvidas na disciplina, passaram a questionar se esse uso estava, de fato, vinculado à aprendizagem ou se ocorria apenas como inserção tecnológica sem intencionalidade pedagógica. Surgiu então uma inquietação central: como incorporar tecnologias digitais de modo crítico, planejado e alinhado aos objetivos de ensino?

Após as análises, discussões e apresentações dos mapas conceituais, avançamos para uma nova etapa da aula: a elaboração coletiva de um plano de intervenção pedagógica. Em grupo, os estudantes precisaram pensar estratégias concretas para enfrentar os problemas identificados no cenário apresentado, propondo ações viáveis e pedagogicamente fundamentadas para integrar tecnologias digitais ao ensino de Química de forma significativa.

Na sequência, cada estudante iniciou individualmente a construção do esboço de um plano de aula, considerando como ponto de partida o plano de intervenção elaborado coletivamente. A proposta consistiu em transformar as reflexões anteriores em planejamento didático, aproximando teoria e prática docente. Esse momento revelou criatividade, senso crítico e preocupação com a intencionalidade pedagógica das escolhas realizadas.

Ao final do encontro, foram apresentadas as orientações para a próxima aula, também disponibilizadas no mural da turma. Os estudantes deverão desenvolver de forma mais aprofundada o protótipo de seus planos de aula, em perspectiva analítica e crítica. Para isso, precisarão detalhar objetivos de aprendizagem, metodologias adotadas, autores que fundamentam essas metodologias, formas de incorporação das tecnologias digitais, finalidades pedagógicas de cada recurso utilizado, bem como estratégias e instrumentos de avaliação da aprendizagem.

Escutar esse tipo de reflexão e acompanhar esse processo formativo tem sido profundamente gratificante. Perceber que os estudantes estão deslocando o olhar de uma perspectiva instrumental para uma compreensão pedagógica e crítica da tecnologia demonstra que a aprendizagem está acontecendo de forma significativa. Mais do que discutir ferramentas, estamos debatendo concepções de ensino, mediação pedagógica e formação docente.

Saio desta aula com a certeza de que experiências como essa fortalecem não apenas a aprendizagem dos estudantes, mas também minha identidade como professor em formação permanente. Tenho vivido um estágio de docência que ultrapassa a ideia de cumprir exigências acadêmicas. Trata-se de uma experiência humana, intelectual e profissional profundamente transformadora.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo dirigido: articulações sobre tecnologia, inteligência e educação

 

A leitura de Álvaro Vieira Pinto permite compreender a tecnologia para além de uma visão simplificada, que a reduz a máquinas, aparelhos ou instrumentos neutros colocados à disposição da sociedade. Em sua análise presente em O Conceito de Tecnologia, a tecnologia constitui um fenômeno histórico e social inseparável do trabalho humano, das condições materiais de existência e dos projetos políticos que atravessam cada época (Pinto, 2005). Por isso, pensar a técnica exige reconhecer que ela não surge espontaneamente, tampouco possui significado universal. Cada forma tecnológica expressa necessidades concretas, modos de produção específicos e relações sociais determinadas. Nesse sentido, a tecnologia é resultado da ação humana acumulada historicamente e, ao mesmo tempo, força que reorganiza a vida coletiva.

Ao discutir os múltiplos sentidos do termo tecnologia, Vieira Pinto desmonta a crença de que se trata de algo inequívoco e neutro. Quando apresenta a tecnologia como teoria da técnica, como conjunto de técnicas disponíveis em uma sociedade ou como ideologização da técnica, o autor evidencia que seu significado depende do contexto histórico em que é produzido e utilizado (Pinto, 2005). Essa compreensão rompe com a ideia comum de que a tecnologia seria um bem universal, igual para todos e desvinculado de interesses. Ao contrário, ela participa das disputas econômicas, culturais e políticas, podendo servir tanto à emancipação quanto à manutenção de estruturas de dominação. A neutralidade atribuída à tecnologia, portanto, encobre relações de poder e naturaliza desigualdades.

Essa discussão conduz diretamente ao problema da consciência. Para Vieira Pinto, a relação que os sujeitos estabelecem com a tecnologia interfere profundamente na maneira como compreendem a realidade. Quando a técnica é apropriada de modo crítico, isto é, quando se reconhecem seus processos de produção, seus limites e suas finalidades sociais, ela pode ampliar a consciência histórica e fortalecer a capacidade transformadora dos indivíduos. Em contrapartida, quando é consumida de forma passiva, como mercadoria pronta e incontestável, tende a reforçar a alienação. O sujeito passa a enxergar os artefatos tecnológicos como poderes externos e superiores, perdendo de vista que são criações humanas e, portanto, passíveis de transformação. A ausência de apropriação crítica da tecnologia contribui para uma consciência adaptada e dependente, enquanto sua compreensão ativa favorece a autonomia intelectual e política (Pinto, 2005).

Nesse percurso, o trabalho ocupa lugar central. Em Vieira Pinto, é pelo trabalho que o ser humano transforma a natureza, produz cultura e constrói instrumentos capazes de ampliar suas possibilidades de ação no mundo. A tecnologia não pode ser entendida apenas como recurso instrumental porque ela nasce justamente desse movimento histórico de objetivação do trabalho humano. Cada ferramenta, máquina ou sistema técnico materializa conhecimentos, experiências e esforços acumulados coletivamente ao longo do tempo. Assim, a técnica não está fora do sujeito: ela é expressão de sua capacidade criadora. Compreender isso permite superar leituras tecnicistas que enxergam os objetos apenas por sua funcionalidade imediata, ignorando as relações sociais e históricas que os constituem (Pinto, 2005).

As reflexões de Vieira Pinto dialogam intensamente com as formulações de Pierre Lévy em As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Lévy sustenta que as tecnologias modificam as formas de pensar, conhecer e comunicar, reorganizando os processos cognitivos humanos (Lévy, 1993). A escrita, a imprensa, os computadores e as redes digitais não apenas facilitam tarefas, mas produzem novas maneiras de memória, raciocínio e interação social. Em sua noção de ecologia cognitiva, humanos e tecnologias compõem coletivos pensantes nos quais a inteligência se distribui entre sujeitos, linguagens e dispositivos. Há, portanto, convergência com Vieira Pinto quando ambos rejeitam a técnica como elemento neutro e exterior ao humano.

Entretanto, cada autor enfatiza dimensões distintas. Vieira Pinto privilegia a análise materialista da tecnologia como produção histórica vinculada ao trabalho e às desigualdades sociais. Lévy, por sua vez, concentra-se nos efeitos cognitivos e comunicacionais das tecnologias sobre a inteligência coletiva (Lévy, 1993). Em vez de oposição, essas perspectivas podem ser vistas como complementares. Se Vieira Pinto mostra quem produz a tecnologia, em quais condições e com quais interesses, Lévy ajuda a compreender como ela reconfigura modos de pensar e aprender. Juntos, permitem uma leitura mais ampla do fenômeno tecnológico contemporâneo.

Esse debate também pode ser articulado com Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido, ao defender uma consciência crítica capaz de ler o mundo para transformá-lo (Freire, 1987). Assim como a educação bancária reduz estudantes à passividade, o uso acrítico da tecnologia converte sujeitos em meros consumidores. Em contrapartida, práticas dialógicas e problematizadoras podem utilizar recursos técnicos como instrumentos de emancipação, autoria e participação social.

Com Lev Vygotsky, em A Formação Social da Mente, a aproximação ocorre na compreensão de que o desenvolvimento humano é mediado por instrumentos e signos socialmente produzidos (Vygotsky, 1991). A técnica participa da constituição das funções psicológicas superiores, mostrando que aprender e pensar sempre envolvem mediações culturais. Tecnologias digitais, nesse contexto, tornam-se novos instrumentos simbólicos que reorganizam processos cognitivos e interativos.

As contribuições de Manuel Castells em A Sociedade em Rede ampliam esse debate ao destacar que vivemos em uma sociedade em rede, marcada por fluxos informacionais globais (Castells, 1999). Sua análise mostra que as tecnologias digitais redefinem trabalho, comunicação, economia e poder. Tal perspectiva dialoga com Vieira Pinto ao evidenciar que a técnica não é isolada da estrutura social, embora Castells enfatize especialmente a lógica das redes e da informação como eixo organizador contemporâneo.

Já Marshall McLuhan, em Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem, acrescenta outra chave interpretativa ao afirmar que os meios de comunicação funcionam como extensões do homem (McLuhan, 1964). Mais do que transmitir conteúdos, cada meio altera percepções, sensibilidades e formas de organização social. Essa leitura aproxima-se de Pierre Lévy e complementa Vieira Pinto ao evidenciar que a tecnologia modifica não apenas a produção material, mas também os modos de sentir, comunicar e conhecer.

Autores contemporâneos também ampliam essa reflexão. Henry Jenkins, em Cultura da Convergência, demonstra que a cultura digital fortalece práticas participativas, circulação colaborativa de conteúdos e novas relações entre produtores e consumidores (Jenkins, 2009). Essa análise ajuda a compreender como a tecnologia pode potencializar autoria e inteligência coletiva.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, oferece uma crítica relevante ao mostrar que o capitalismo digital intensifica produtividade, autoexploração e esgotamento subjetivo (Han, 2015). Sua leitura tensiona perspectivas excessivamente otimistas sobre inovação tecnológica ao lembrar que conectividade permanente também produz sofrimento e controle.

Na mesma direção crítica, Cathy O'Neil, em Algoritmos de Destruição em Massa, evidencia que algoritmos e sistemas automatizados podem reproduzir desigualdades sociais, discriminações e injustiças em larga escala (O'Neil, 2020). Essa abordagem atualiza a crítica de Vieira Pinto ao mostrar que a tecnologia continua atravessada por interesses e relações de poder.

No que se refere à aprendizagem, especialmente a partir das reflexões de Vieira Pinto no capítulo XIV, ela não pode ser reduzida à simples aquisição de conteúdos. Aprender significa transformar a relação do sujeito com o mundo, ampliando sua capacidade de compreender, agir e intervir na realidade. O conhecimento emerge da prática social e da atividade humana sobre o meio, sendo continuamente reelaborado na experiência histórica. O trabalho e a técnica são mediações decisivas nesse processo, pois ao manipular instrumentos, resolver problemas concretos e produzir novas respostas para necessidades reais, o sujeito aprende e se transforma (Pinto, 2005).

Essa concepção dialoga diretamente com Pierre Lévy ao considerar que as tecnologias contemporâneas também remodelam os processos cognitivos. Ambientes digitais, redes colaborativas e sistemas interativos criam novas formas de aprender baseadas na conexão, na autoria e na inteligência distribuída (Lévy, 1993). Também converge com Freire, ao exigir protagonismo discente e leitura crítica da realidade, e com Vygotsky, ao reconhecer a mediação social e cultural no desenvolvimento humano.

Para a educação contemporânea, as implicações são profundas. Ensinar hoje exige superar tanto o tecnicismo instrumental quanto a rejeição simplista das tecnologias. Mais do que introduzir ferramentas em sala de aula, trata-se de formar sujeitos capazes de compreender historicamente a técnica, utilizá-la criativamente e questionar seus impactos sociais. Isso implica reconhecer desigualdades de acesso, promover inclusão digital crítica e desenvolver práticas pedagógicas colaborativas. A aprendizagem passa, então, a ser entendida como processo ativo de humanização, no qual conhecer significa transformar a si mesmo e ao mundo em diálogo com os outros e com as mediações técnicas de seu tempo.

REFERÊNCIAS 

VIEIRA PINTO, Álvaro Vieira Pinto. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. v. 1 e v. 2.

LÉVY, Pierre Lévy. As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

FREIRE, Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

VYGOTSKY, Lev Vygotsky. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

CASTELLS, Manuel Castells. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

MCLUHAN, Marshall McLuhan. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. São Paulo: Cultrix, 1964.

JENKINS, Henry Jenkins. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

HAN, Byung-Chul Han. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

O'NEIL, Cathy O'Neil. Algoritmos de Destruição em Massa. São Paulo: Rua do Sabão, 2020.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Aprender fazendo: desafios e potencialidades na construção de um vídeo sobre aprendizagem móvel

A construção deste vídeo decorreu das discussões desenvolvidas na disciplina, especialmente no que se refere ao uso das tecnologias digitais no ensino. A proposta, estruturada em formato de entrevista, demandou não apenas a apropriação dos referenciais teóricos, mas também a organização das ideias de maneira clara, articulada e coerente com o contexto educacional contemporâneo.

Entretanto, é importante destacar que o processo de elaboração do vídeo não foi simples. Pelo contrário, tratou-se de uma atividade desafiadora, que exigiu deslocamento da zona de conforto e enfrentamento de limitações pessoais, sobretudo no que diz respeito ao uso de ferramentas digitais de produção audiovisual, área na qual não possuo formação específica. Ainda assim, optei por me arriscar.

Nesse sentido, a gravação foi realizada no Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida, localizado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEAC) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). O ambiente, estruturado com recursos tecnológicos, possibilitou experiências inéditas, como o uso de tela verde e de ferramentas de apoio à fala, como o teleprompter. Além disso, também me envolvi diretamente no processo de edição, buscando compreender e explorar possibilidades que até então não faziam parte da minha prática.

Reconheço que o produto final não alcança plenamente o nível que eu almejava, o que está diretamente relacionado à minha pouca experiência com esse tipo de produção. No entanto, mais do que entregar um vídeo, houve a intencionalidade de construir um processo formativo, no qual o ato de se arriscar, experimentar e tentar fazer melhor se tornou central. Entendo que esse movimento é fundamental, especialmente no contexto das tecnologias digitais, que exigem constante atualização, abertura ao novo e disposição para aprender.

Do ponto de vista pedagógico, essa experiência também reforça que assegurar a interação e a interatividade é um dos grandes desafios da educação mediada por tecnologias. Não se trata apenas de utilizar dispositivos, mas de promover experiências de aprendizagem que envolvam os estudantes de forma ativa. Conforme destacam Dusi, Pedrosa e Santos (2024), o uso das tecnologias deve estar articulado a objetivos pedagógicos claros, favorecendo a construção do conhecimento.

Nesse contexto, o papel do professor se transforma, deixando de ocupar uma posição centralizadora para assumir uma função mediadora, orientando, problematizando e estimulando a participação discente. Essa mudança é essencial para romper com modelos tradicionais de ensino baseados na passividade e na simples transmissão de conteúdos.

Em síntese, a aprendizagem móvel e o uso das tecnologias digitais configuram-se como importantes possibilidades de inovação pedagógica. No entanto, seu potencial só se concretiza quando há intencionalidade, planejamento e, sobretudo, disposição para experimentar, errar e aprender, como foi o caso deste processo de construção do vídeo.

Link de acesso ao vídeo: https://youtu.be/M84CVGbup1w?si=6g8fHIK07JEAeD9q

Momentos:





REFERÊNCIAS:

SANTOS, E.; PORTO, C. App-Education: fundamentos, contextos e práticas educativas luso-brasileiras na cibercultura. EDUFBA, 2019.

BERNARDO, J. C. O.; KARWOSKI, A. M. A leitura em dispositivos digitais móveis. ETD, 2017.

SANTOS, S. L. et al. Dispositivos móveis: um facilitador no processo ensino-aprendizagem. Revista Vértices, 2016.

SONEGO, A. H. S.; BEHAR, P. M-learning: o uso de dispositivos móveis por uma geração conectada. Educação, 2019.

DUSI, L. L.; PEDROSA, S. M. P. A.; SANTOS, S. R. M. Tecnologias digitais e aprendizagem docente. Revista da FAEEBA, 2024.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Entre trajetórias e transformações


A aula de ontem foi, antes de tudo, um convite à pausa. Não para interromper o percurso, mas para compreendê-lo. Iniciamos com um processo de autoavaliação, olhando para o caminho trilhado até aqui, reconhecendo avanços, dificuldades e, principalmente, as transformações que já começam a se delinear em nossa forma de pensar a docência.

Na sequência, vivenciamos um momento extremamente significativo: a dinâmica do “amigo doce”. Mais do que uma simples troca, foi um exercício de escuta, sensibilidade e reconhecimento. Escolhemos colegas com os quais nos identificamos e compartilhamos percepções sobre suas trajetórias, destacando evoluções que, muitas vezes, o próprio sujeito ainda não havia percebido. Foi um momento potente, que reforçou o caráter coletivo da aprendizagem e evidenciou o quanto nos constituímos também no olhar do outro.

Dando continuidade, mergulhamos na etapa 3 do PBL da semana, com a construção de uma linha do tempo argumentativa. Esse movimento nos permitiu compreender que a relação entre tecnologias e educação não é recente, tampouco linear. Trata-se de um percurso marcado por avanços, resistências, promessas e reconfigurações constantes. Ao discutir em grupo e depois no coletivo, fomos tensionando nossas próprias compreensões e elaborando novas perguntas.

Entre as principais aprendizagens do Problema 5, que buscava compreender o que a história das tecnologias no ensino revela, ficou evidente que a simples inserção de tecnologias não garante inovação pedagógica. Como discutem Coll, Mauri e Onrubia, o potencial das tecnologias está diretamente relacionado às práticas de uso e às intencionalidades pedagógicas que as sustentam. Não se trata da ferramenta em si, mas do que fazemos com ela.

Também refletimos, a partir de Valente e Almeida, sobre os aprendizados deixados pela pandemia, que evidenciou tanto as possibilidades quanto as desigualdades no acesso e uso das tecnologias. Nesse sentido, a discussão sobre inclusão digital, como apontam Bonilla e Oliveira, mostrou-se fundamental, revelando suas ambiguidades. Incluir não é apenas dar acesso, mas garantir condições reais de participação crítica e significativa.

Ainda assim, algumas questões permaneceram em aberto. Como transformar, de fato, práticas pedagógicas ainda centradas na transmissão? Como evitar que as tecnologias sejam apenas uma camada superficial de inovação? E, talvez a mais inquietante, estamos realmente dispostos a mudar nossa forma de ensinar?

Esse percurso tensiona nossa prática docente e nos desloca de uma posição confortável. Ele nos convida a repensar o papel do professor, não mais como centro do processo, mas como mediador, curador e designer de experiências de aprendizagem.

Encerrando a aula, fomos apresentados ao Problema 6, que traz a história de Marina, uma professora que se vê diante do desafio de compreender e integrar os dispositivos digitais em sua prática. A narrativa não é distante da realidade de muitos de nós.

Na discussão inicial, refletimos sobre a presença dos dispositivos móveis em nosso cotidiano, que é constante, intensa e multifacetada, e sobre como, paradoxalmente, eles ainda são pouco explorados pedagogicamente. Também debatemos seus limites e potencialidades, reconhecendo que, ao mesmo tempo em que podem distrair, também podem ampliar possibilidades de interação, autoria e aprendizagem.

Ao pensar sobre minha própria relação com esses dispositivos, percebo que o tablet já faz parte do meu processo de estudo de forma bastante integrada. Utilizo para leitura de textos acadêmicos, artigos e livros digitais, além de realizar anotações importantes. Ele se tornou, de certo modo, uma extensão do meu espaço de estudo, sendo portátil, acessível e funcional.

A questão que fica agora não é mais usar ou não usar tecnologias, mas como utilizá-las de maneira intencional, crítica e pedagógica. Talvez seja justamente essa a virada que estamos começando a construir.

domingo, 5 de abril de 2026

Processo de desconstrução: a autoavaliação até aqui…


A trajetória que tenho percorrido na disciplina de Tecnologias Digitais Educacionais, sob a orientação do Professor Fernando Pimentel, tem sido marcada por um exercício constante e profundo de desconstrução. Se eu pudesse sintetizar todo esse percurso em um conceito central, seria a necessidade de desmanchar certezas prévias para permitir que uma nova estrutura de pensamento se estabeleça. No início dessa jornada, uma frase em particular tornou-se meu guia fundamental: a ideia de que é preciso esvaziar o copo e deixar a bagagem acumulada fora da sala de aula para que o aprendizado seja genuíno. 

Esse processo não é simples, especialmente vindo de um mestrado profissional onde a tônica era a produção educacional e a aplicabilidade direta. A transição para um doutorado acadêmico impõe um rigor teórico e uma exigência intelectual que me forçaram a enfrentar o desconforto do novo e a entender que o início dessa adaptação seria naturalmente difícil.

Nesse caminho de reconstrução, sinto que venho montando um complexo quebra-cabeça onde cada peça exige atenção minuciosa. Em certos momentos, a sensação é a de estar equilibrando as cartas de um castelo de baralho, em que a fragilidade do processo nos obriga a ter cautela, mas a intenção final é erguer uma base teórica que seja verdadeiramente sólida. Tenho compreendido que a evolução acadêmica não é uma linha reta ascendente, pois muitas vezes é necessário dar alguns passos atrás para consolidar conceitos e garantir que os passos seguintes sejam dados com maior firmeza. 


É um trabalho de formiga, construído tijolo por tijolo e degrau por degrau, onde a paciência se torna uma virtude tão necessária quanto a própria disciplina de estudo. Esse movimento de ir e vir tem sido extremamente rico, transformando o que antes era uma base puramente técnica em um alicerce científico robusto.


A minha pesquisa, que segue focada no campo da Educação Híbrida, também foi atravessada por esse turbilhão de mudanças. Ao me aprofundar nas leituras e no contato com diferentes teóricos, percebi que o meu projeto precisava de novos caminhos e de uma reconfiguração que acompanhasse o meu próprio crescimento intelectual. A mudança mais significativa que identifico em mim é a transição de um olhar meramente descritivo para uma postura analítico crítica. Hoje, o meu objetivo ao ler um autor não é apenas reproduzir o que ele diz ou descrever suas ferramentas, mas sim investigar suas intenções, questionar seus fundamentos e analisar de que forma aquele pensamento se sustenta diante dos desafios educacionais contemporâneos. Aprender a analisar criticamente foi o ponto que mais se fixou em minha mente, transformando a leitura em um diálogo ativo e questionador.


Embora o percurso jamais tenha sido apresentado como algo fácil, a gratificação vem da superação diária e da compreensão cada vez mais clara das teorias que sustentam minha investigação. A cada livro lido e a cada autor compreendido, sinto que o esforço se justifica pela qualidade do conhecimento que estou sedimentando.


O que me motiva a retornar a cada segunda-feira e a mergulhar nos textos propostos é justamente essa busca incessante por questionamentos e o desejo latente de buscar respostas para as lacunas que a disciplina nos apresenta. Essa sede pelo saber, alimentada por um processo de construção pacientemente valioso, é o que transforma o cansaço do doutorado em uma experiência de vida profundamente enriquecedora e transformadora.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Linha do Tempo Argumentativa: Tecnologias Digitais no Ensino

A construção da linha do tempo foi um exercício de análise sobre como as tecnologias digitais foram sendo incorporadas à educação ao longo do tempo. Mais do que organizar datas, a proposta exigiu identificar padrões, possibilidades e limites presentes em diferentes momentos históricos.

A partir das leituras, foi possível perceber que, desde as primeiras iniciativas de informatização, já existia a expectativa de que as tecnologias promoveriam inovação no ensino e melhoria da aprendizagem. Com a expansão da internet e dos ambientes virtuais nos anos 2000, essas promessas se intensificaram, especialmente em relação à ampliação do acesso e à flexibilização do ensino (Coll; Mauri; Onrubia, 2010).

Entretanto, a linha do tempo evidenciou que muitos desses avanços não se traduziram automaticamente em mudanças pedagógicas. Em diversos momentos, as tecnologias foram utilizadas apenas como suporte para práticas tradicionais, sem transformação efetiva no processo de ensino e aprendizagem (Coll; Mauri; Onrubia, 2010).

Outro aspecto importante identificado foi o foco das políticas públicas no acesso às tecnologias. Embora tenham ampliado a inclusão digital, essas iniciativas nem sempre garantiram o uso crítico e significativo das ferramentas, mantendo desigualdades no modo como estudantes e professores se apropriam desses recursos (Bonilla; Oliveira, 2011).

A pandemia da COVID-19 reforçou essas questões, ao evidenciar tanto o potencial quanto as limitações do uso das tecnologias digitais na educação. Houve ampliação do uso, mas também ficaram visíveis desafios relacionados à formação docente, infraestrutura e práticas pedagógicas (Valente; Almeida, 2022).

Assim, a linha do tempo construída permitiu compreender que a relação entre tecnologias e educação é marcada por continuidades. As promessas de inovação se renovam a cada contexto, mas os limites tendem to se repetir, indicando que o impacto das tecnologias depende menos de sua presença e mais das formas como são integradas às práticas pedagógicas.

Link de acesso a linha do tempo: https://padlet.com/ramosdiogo595/linha-do-tempo-argumentativa-tecnologias-digitais-no-ensino-1l7410fz70tak6xc 

Código QR:



Veredito Final

Para que as tecnologias digitais contribuam efetivamente para a aprendizagem, é necessário ir além da lógica do acesso e investir na transformação das práticas pedagógicas. Isso implica repensar a formação docente, que deve incluir não apenas o domínio técnico, mas também o desenvolvimento de competências críticas e pedagógicas para o uso das tecnologias (Coll; Mauri; Onrubia, 2010).

Além disso, é fundamental que as políticas educacionais deixem de focar exclusivamente na distribuição de equipamentos e passem a priorizar projetos pedagógicos integrados, que considerem o contexto dos estudantes e promovam aprendizagens significativas. Como apontam Valente e Almeida (2022), as experiências da pandemia evidenciaram que o uso eficaz das tecnologias depende da articulação entre infraestrutura, formação e práticas inovadoras.

Também é importante considerar que a chamada inclusão digital não pode ser reduzida ao acesso aos dispositivos, mas deve envolver processos de apropriação crítica e participação ativa na cultura digital, superando desigualdades no uso das tecnologias (Bonilla; Oliveira, 2011). Nesse sentido, integrar tecnologias à educação exige uma mudança de perspectiva sobre o papel do estudante, que passa de receptor para sujeito ativo na construção do conhecimento.

Ademais, com o avanço recente de tecnologias como a inteligência artificial, surgem novas possibilidades, mas também desafios relacionados ao uso ético, à formação docente e à integração pedagógica dessas ferramentas, reforçando a necessidade de políticas mais articuladas e contextualizadas (Pedró, 2020; Educause, 2026).

Portanto, o verdadeiro potencial das tecnologias digitais só será alcançado quando houver uma mudança estrutural na forma de ensinar e aprender, com foco na construção ativa do conhecimento, na colaboração e no desenvolvimento de competências para a cultura digital, articulando dimensões pedagógicas, tecnológicas e sociais do processo educativo.

REFERÊNCIAS 

COLL, C.; MAURI, T.; ONRUBIA, J. A incorporação das tecnologias da informação e da comunicação na educação: do projeto técnico-pedagógico às práticas de uso. In: COLL, C.; MONEREO, C. (Org.). Psicologia da Educação Virtual.Porto Alegre: Artmed, 2010. p. 66–93.  

VALENTE, J. A.; ALMEIDA, M. E. B. Tecnologias e educação: legado das experiências da pandemia COVID-19 para o futuro da escola. Panorama Setorial da Internet, São Paulo, ano 14, n. 2, jun. 2022. Disponível em: https://cetic.br/media/docs/publicacoes/6/20220725145804/psi-ano-14-n-2-tecnologias-digitais-tendencias-atuais-futuro-educacao.pdf.

BONILLA, M. H. S.; OLIVEIRA, P. C. S. Inclusão digital: ambiguidades em curso. In: BONILLA, Maria Helena Silveira; PRETTO, Nelson De Luca (org.). Inclusão digital: polêmica contemporânea. Salvador: EDUFBA, 2011. p. 15-36. Disponível em: https://static.scielo.org/scielobooks/qfgmr/pdf/bonilla-9788523212063.pdf.

EDUCAUSE. 2026 EDUCAUSE Students and Technology Report: steady amid change. Autores: Kristen Gay; Nicole Muscanell. [S. l.]: EDUCAUSE, 2026. Disponível em: https://www.educause.edu/.

PEDRÓ, F. Applications of Artificial Intelligence to higher education: possibilities, evidence, and challenges. IUL Research, [S. l.], v. 1, n. 1, p. 61–76, 2020. DOI: 10.57568/iulres.v1i1.43. Disponível em: https://iulresearch.iuline.it/index.php/IUL-RES/article/view/43

LIVINGSTONE, V.; STRICKER, J. K. The disappearance of an unclear question. [S. l.]: UNESCO, 2024. Disponível em: https://www.unesco.org/en/articles/disappearance-unclear-question


segunda-feira, 30 de março de 2026

Relato de Aula: entre Castelos de Cartas e a Solidez Teórica na Educação



A aula de hoje no doutorado iniciou-se com uma dinâmica lúdica, mas carregada de densidade conceitual, ao utilizarmos cartas de baralho para a construção de castelos. Essa atividade serviu como uma metáfora precisa para compreendermos que o desenvolvimento de qualquer investigação científica ou prática pedagógica exige uma base teórica sólida. Sem esse suporte epistemológico, qualquer tentativa de inovação desmorona diante da complexidade do real, reforçando a ideia de que a fundamentação não é um adereço, mas a estrutura que sustenta o fazer acadêmico. Essa solidez é o que Dakich define como essencial para superar o uso meramente instrumental das tecnologias, garantindo que a integração digital ocorra a partir de fundamentos consistentes e não apenas por um deslumbramento técnico superficial.

Dando continuidade ao percurso pedagógico, avançamos para as discussões sobre o Diagrama de Ishikawa, focando na construção de perguntas que nos permitissem diagnosticar as causas e efeitos das fragilidades no ensino superior. Ao adentrarmos na terceira parte do PBL, o foco deslocou-se para os desafios e perspectivas da incorporação das tecnologias digitais, onde a análise das práticas híbridas exige a mobilização do modelo TPACK. Conforme proposto por Koehler, Mishra e Cain, a eficácia do ensino na cultura digital depende da articulação equilibrada entre o conhecimento do conteúdo, a pedagogia e a tecnologia. Sem essa integração triádica, a prática docente tende a ficar estagnada no que Puentedura classifica como níveis iniciais do modelo SAMR, onde a tecnologia apenas substitui recursos tradicionais sem promover uma transformação significativa ou a redefinição das atividades de aprendizagem.

A reflexão sobre esses desafios também perpassa a necessidade de superar o isolamento cognitivo e a lógica da transmissão de informações. Para que a educação online não seja massiva nem maçante, como defendem Pimentel e Carvalho, é preciso adotar princípios de autoria e curadoria, transformando o material didático em uma obra aberta. Essa perspectiva dialoga com a inteligência coletiva proposta por Pierre Lévy, na qual o ciberespaço é um ambiente de construção compartilhada e interatividade subjetiva. Quando o docente compreende que o conhecimento na era digital é distribuído em redes, conforme a teoria conectivista de George Siemens, o foco da aula deixa de ser o acúmulo individual de dados e passa a ser a capacidade do estudante de estabelecer conexões relevantes entre diferentes fontes e sistemas.

Nesse cenário, o papel do professor transita de um transmissor de conteúdos para um designer de conversas e interações. Apoiando-se no framework conversacional de Diana Laurillard, entendemos que a aprendizagem acadêmica depende de um ciclo contínuo de diálogo e feedback entre sujeitos. Como destaca Fernando Pimentel, a interação não deve ser vista apenas como um suporte técnico, mas como uma dimensão múltipla que direciona a tutoria para a mediação pedagógica efetiva. Trata-se de uma mudança no fazer para atingir o compreender, tal como defende José Armando Valente, onde a tecnologia atua como uma ferramenta para o pensamento crítico. 


Da tecnologia instrumental à intencionalidade pedagógica: reflexões e planejamentos no estágio docência

  A experiência vivenciada no estágio de docência tem sido extremamente significativa, enriquecedora e prazerosa para minha formação docente...